Eleita para apresentar a transmissão brasileira do Oscar 2023, Ana Furtado caiu no limbo das críticas por cometer gafes e falar mais do que os comentaristas. Ao seu lado, a atriz Camila Morgado tinha muito a dizer, mas pouco espaço e também falta de jogo de cintura para falar com agilidade. Entre as duas, o comentarista Michel Arouca, acostumado ao dinamismo de premiações – ele apresenta outras cerimônias exibidas pela TNT –, tentou dar ritmo à conversa, mas raramente conseguiu se aprofundar ao falar sobre os indicados. O trio, porém, não está só: apresentar o Oscar ao vivo é uma tarefa difícil e há anos o Brasil pena para achar um modelo que funcione para gregos e troianos. As razões estão além da escolha de bons apresentadores e comentaristas.
Entre a Globo e a TNT, a função foi desempenhada por diversos nomes do jornalismo e da crítica do cinema. Rubens Ewald Filho, que morreu em 2019, foi o grande comentarista do Oscar no Brasil ao longo de quase 40 anos. O crítico veterano fazia comentários contundentes, uma postura que faz falta em tempos de superficialidade de influenciadores que elogiam absolutamente tudo. Foi essa postura “paz e amor” e politicamente correta, aliás, que acabou tirando Ewald Filho da função em 2018 e deixando o Oscar no Brasil um pouco mais sem graça: um comentário considerado transfóbico custou o cargo do jornalista na TNT. Comparável a Ewald Filho, aos que acompanhavam o Oscar na Globo, o ator José Wilker (1944-2014) brilhou por anos com seu carisma e amplo repertório da história do cinema na função de comentarista. O mesmo não pôde ser dito de uma de suas substitutas: em 2016, Gloria Pires virou piada ao demonstrar total falta de conhecimento sobre os indicados.
Se Gloria, pelo menos, fez o povo rir, a atual configuração do Oscar não parece promissora. Seja quem for o próximo escolhido, o apresentador do prêmio se tornou uma espécie de “garoto(a) propaganda”. A marca de celular que patrocinou a transmissão ganhou mais espaço e elogios dos apresentadores do que os filmes do Oscar. Logo, mais do que boas personalidades com o microfone, a produção do programa precisa encontrar um formato que celebre o cinema e ainda agrade os patrocinadores. Uma missão possível — mas pouco provável.
