Para a propaganda russa, o vídeo parecia perfeito: um soldado inimigo que desafia os seus captores, grita o já amplamente conhecido “Slava Ukraini” e é sumariamente fuzilado, entre xingamentos.

Os ucranianos só poderiam tremer diante do destino fatal do anônimo atrevido.

Obviamente, a outrora celebrada propaganda russa está perdendo a mão — se não a guerra. O vídeo divulgado na segunda-feira virou propaganda contra, com ucranianos e estrangeiros impressionados pela cena de arrepiar. Cigarro no canto da boca, olhar triste mas não temeroso, o homem agora identificado como Timofei Shadura, de 41 anos, virou instantaneamente um símbolo da resistência ucraniana.

É impossível não imaginar o que ele pensou naqueles segundos finais. Shadura não faz pose de herói de filme de guerra, mas foi exatamente o que virou.

Sua morte aconteceu em 3 de março e o corpo está em território ocupado pelos invasores. Foram membros da família que o identificaram no vídeo. “É 100% meu irmão. São seus olhos, sua voz e seu jeito de fumar”, disse Sofia Kochmar-Timoshenko. 

Shadura tinha sido convocado em dezembro. Era civil e foi celebrado no discurso diário de Volodymyr Zelensky. “Glória aos heróis! Glória à Ucrânia! E vamos encontrar os assassinos”, prometeu o presidente.

Primeiro, os ucranianos teriam que ganhar a guerra. O momento atual não é bom, ainda que esteja longe de crítico. As forças russas, entre mercenários do Grupo Wagner e soldados regulares, avançam sobre Bakhmut, uma pequena cidade que se tornou o foco da guerra.

Vladimir Putin quer conquistá-la a qualquer preço — inclusive a perda de 20 mil russos, caídos numa proporção de cinco para um, acima da relação genérica entre atacantes e defensores (três para um). O sacrifício dos ucranianos para defendê-la também é enorme. Um médico entrevistado pelo New York Times deu um exemplo: dos 500 homens de sua unidade enviados em dezembro para Bakhmut, sobrevivem atualmente 150.

Vale a pena perder tantos combatentes por um lugar que não tem grande valor estratégico e mantém imobilizados contingentes que poderiam ser usados na esperada — e inevitável — contraofensiva a ser lançada pelos ucranianos?

Aparentemente, os generais ucranianos não querem nem ouvir falar em retirada, mesmo com suas tropas totalmente cercadas e com o envio de reforços dificultado pelo imenso lamaçal que se espalha pela Ucrânia quando o inverno começa a chegar ao fim.

A lama também atrapalha os russos, em alguns casos combatendo apenas com armas curtas e, quase inacreditavelmente, com pás, diante da falta de reposição de munição.

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Uma vitória russa em Bakhmut viria em má hora, coincidindo com a revelação dos serviços de inteligência americanos de que foram ucranianos — não identificados — que explodiram o gasoduto chamado Nord Stream II.

O gasoduto que abasteceria a Alemanha estava pronto, mas nunca chegou a ser usado. Foi explodido em setembro do ano passado, garantindo que nunca entrará em operação. É um constrangimento para a Ucrânia, especialmente com um aliado importante como a Alemanha. Uma operação dessas dimensões, envolvendo barcos e mergulhadores numa zona crítica, só pode ser feita por agentes estatais.

A dependência alemã do gás russo sempre foi um entrave geoestratégico. Com enorme esforço e determinação, o país conseguiu fontes alternativas depois da invasão da Ucrânia.

A propaganda russa atribuiu a sabotagem aos americanos, no que foi ajudada pelo hoje totalmente desacreditado jornalista Seymour Hersh. Muitos defensores da causa russa usaram a reportagem de Hersh, atribuindo a explosão do gasoduto a uma ordem direta de Joe Biden, como se fosse a palavra divina.

É possível que a divulgação em off da conclusão do serviço não identificado de espionagem, atribuindo a responsabilidade a ucranianos não identificados, tenha uma relação com isso.

Irá a queda de Bakhmut, anunciada há tantas semanas pelo falante Ievgueni Prigozhin, o chefão dos wagneristas, prenunciar uma virada em favor dos russos? Ou irão os ucranianos produzir um milagre de última hora?

Na Guerra da Coreia, tornou-se célebre a frase do coronel Lewis Pulley, conhecido pelo apelido de Chesty, quando os marines sob seu comando se viram assediados por todos os lados pelo inimigo.

“Estamos cercados. Isso simplifica o nosso trabalho de ir atrás desses sujeitos e matá-los”, disse o combativo Chesty.

Timofei Shadura certamente não pensou no coronel marrento quando encarou a morte e, no teste mais absoluto de coragem, não tremeu.

Os ucranianos também postavam, no início da invasão, vídeos de prisioneiros sendo executados — certamente para horror de americanos e outros aliados, cientes de que isso é um crime de guerra. Os russos sabem que estão atolados até as orelhas nesse tipo de crime e não ligam a mínima. 

Quem irá prendê-los e julgá-los se não perderem a guerra?

Isso dá uma ideia das apostas envolvidas.

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