As negociações para a obtenção de apoio no Congresso começaram tão logo Lula foi eleito, em outubro do ano passado, e se arrastam desde então, sem conclusão à vista. Essa situação só não resultou em problemas para o governo porque seus projetos ainda não foram submetidos a voto e porque, de acordo com ministros, a agenda legislativa do Palácio do Planalto é enxuta e, em seus pontos principais, conta com a boa vontade dos congressistas, inclusive os de oposição. Em 2023, as prioridades de Lula são a reforma tributária e o novo marco fiscal, que ainda será apresentado.
Ao compor sua equipe, o presidente, ciente de que a esquerda sozinha não tem maioria, deu três ministérios para cada uma das seguintes legendas: MDB, PSD e União Brasil. Não foi o suficiente para aplacar a vontade de participação no governo dos integrantes do Centrão. Dono da terceira maior bancada na Câmara, o União Brasil insiste em cobrar mais espaço para seus deputados mesmo depois de o líder da sigla, Elmar Nascimento (BA), conseguir manter um afilhado político no comando da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), estatal que se tornou a queridinha das emendas de relator na gestão de Jair Bolsnaro.
Os deputados aguardam com ansiedade a distribuição de cargos de segundo e terceiro escalões. Na Câmara, diz-se que o estado atual é de “compasso de espera”. Enquanto isso, como forma de pressão, eles anunciam apoio a ações contrárias aos interesses do governo, como a criação da CPI sobre os ataques às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro. O jogo está sendo jogado como sempre, e a regra é clara.
Se houver rateio de cargos tal qual prometido pelos articuladores políticos de Lula, até parlamentares do PL, o partido de Bolsonaro, ajudarão a aprovar os projetos considerados prioritários pelo governo. O mesmo vale para o PP, comandado pelo senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro.
Há cobrança também por mais acesso ao Orçamento da União, o que deve ocorrer. O governo encaminhou um acordo com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), para que parte das verbas dos ministérios seja direcionada aos deputados novatos, que decidirão onde cada centavo será aplicado. A promessa é de que cada um dos 291 deputados estreantes receba um quinhão de cerca de 10 milhões de reais, totalizando 2,9 bilhões de reais. Lula aposta nessa dinheirama para facilitar a formação de uma base de apoio no Congresso.
