Coordenador do corpo de júri da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), Júlio César Guimarães, 50 anos, faz um balanço do resultado do carnaval 2023, que deu vitória à Imperatriz Leopoldinense e rebaixou o Império Serrano. Em meio à pressão das redes sociais por mais julgadores negros, Júlio é categórico ao afirmar que não pensa em alterar o cenário atual, com um júri predominantemente branco.
Qual é o balanço que faz desse carnaval? Já sou coordenador desde o carnaval passado, mas já coordenei por outros anos. A Liga fará 40 anos ano que vem. No critério de julgamento, esse foi o carnaval mais bem julgado de todos os tempos. É difícil concordarmos até com as posições intermediárias, mas agora, do primeiro ao último colocado, para mim está perfeito, ninguém tem que estar na frente de ninguém.
Por que teve tanta crítica em relação à descida do Império Serrano? Carnaval é na avenida, todo mundo começa com 10. Quem erra menos é a campeã e quem erra mais desce. Está tendo polêmica com o Império Serrano, primeiro porque é escola de nome, segundo porque veio com enredo sobre uma pessoa que é unanimidade, não só no samba, mas no Brasil. Quem não gosta de Arlindo Cruz? Mas se assistir ao desfile com calma, vai perceber que, infelizmente, quem mais errou foi o Império.
O julgamento leva em consideração o peso da bandeira das escolas de mais torcida? Não, não leva. A Viradouro deixou de ganhar o carnaval por um décimo. O que quero dizer é o seguinte: se a Viradouro fosse campeã, não seria absurdo. Já o Império está a um ponto inteiro da Mocidade (penúltima colocada), um ponto são 10 décimos, é muita coisa!
Uma observação que dominou a apuração foi a predominância de jurados brancos. Isso será corrigido no próximo Carnaval? Eu podia dar para você uma resposta bonita, politicamente correta: ‘Olha, estamos repensando e tal’. Mas não sou de meias palavras, nem de mentir para daqui a um ano você me cobrar. Tenho um banco de dados na Liesa. Nenhum currículo vem com foto. Leio atentamente os currículos e faço entrevistas. É assim que funciona.
Então não existe estudo de cotas para jurado negro ou algo parecido? Não. Quando a vaga surge, leio os currículos. Tive a honra de, quando entrei na Liga, ter Joel Rufino, importante no movimento negro brasileiro, tive o doutor Sebastião Oliveira, pesquisador e cientista da Fiocruz, grande defensor da democracia, lutou contra o regime militar… Aqui dentro tem todos os lados. Pode ser direita, esquerda, qualquer orientação sexual.
