MARCAS NA PELE - Salman Rushdie, de volta: vitória do espírito humano –@SalmanRushdie/Twitter
Salman Rushdie está de volta. Ele reapareceu, depois de longa recuperação, com algumas cicatrizes e um tapa-olho cobrindo a lente dos óculos. Durante um longo tempo, Rushdie foi um homem marcado para morrer. Depois de lançar seus Versos Satânicos, em 1988, recebeu a fatwa, a condenação do aiatolá Khomeini. No início viveu recluso. “Nos primeiros meses nos mudávamos a cada três dias”, conta, “e logo me vi sozinho, vivendo em uma casa cercada por policiais”. Com o tempo, foi relaxando. Mudou-se para Nova York, em 2000, e decidiu que “tinha uma vida para viver”, e não o faria sob a lógica do terror. Tive a rara chance de conhecê-lo, no Brasil, em 2014, e guardo a memória de um homem espirituoso e modesto, em sua fala, dizendo que, “se o mundo por vezes busca nos estreitar, a literatura nos lembra que somos amplos”. Mas seu destino estava marcado. Três décadas se passaram, até que o longo braço do fanatismo o pegou. Em agosto de 2022, foi esfaqueado quando se preparava para falar em uma escola próxima a Nova York. Foram quinze facadas, que lhe fizeram perder o movimento de uma mão e o olho direito. Sua volta é uma redenção. A vitória do “espírito humano”, na frase de Winston Smith, o herói de Orwell, em 1984, a seu torturador, quando estava por um fio. Rushdie também esteve por um fio, e só consigo pensar nele como um herói de verdade, em nossa tradição iluminista.
Ainda que assustador, a história de Rushdie pode, estranhamente, nos tranquilizar. Em primeiro lugar pela reação do mundo intelectual. Quando um ato trágico e desumano acontece, aprendemos alguma coisa. Enxergamos uma face da barbárie, e com isso abrimos caminho à frente. Há algo também tranquilizador por um motivo duvidoso: a agressão que ele sofreu veio de uma “outra cultura”. Do universo sombrio do fundamentalismo religioso, de modo que podemos dizer: por aqui, dois séculos depois de Voltaire, somos diferentes. Superamos o fanatismo, venha ele de onde vier. E é aí que as coisas começam a embaralhar. Por óbvio não condenamos ninguém mais à morte, por divergência política ou religiosa, fora em um ou outro tuíte ou artigo de jornal, mas andamos longe de um mundo pautado pela tolerância. Ainda agora, a Fundação para os Direitos Individuais na Educação fez uma ampla pesquisa, nos EUA, perguntado se os cidadãos acham que a democracia está ameaçada “por que as pessoas estão com medo de expressar as suas opiniões”. Resultado: 58% dos entrevistados concordaram, parcial ou integralmente. Os números são frios. O interessante mesmo são as histórias. A Fundação identifica casos de professores censurados em universidades por tratarem de temas controversos. Foram 591 episódios documentados nos últimos sete anos. Um professor é punido por questionar cirurgias transgênero em adolescentes; outro por criticar uma política de cotas e convidar Charles Murray para uma palestra; ainda outros por alguma frase “polêmica” sobre Israel, Maomé, armas, 11 de Setembro, Black Lives Matter. No conjunto, uma incrível mistura de intolerância, mal-entendidos e prepotência. Uma vergonha, para ser direito, em um universo — a universidade — que deveria ser espaço de diálogo e liberdade.
“Ficou fácil mobilizar hordas digitais para causar danos a alguém”
Uma vergonha e um alerta. No Brasil, parece evidente que também vivemos uma época de intolerância, e é possível que o shilling effect, ou o “efeito medo” já funcione antes de muita gente dizer alguma coisa fora do padrão. Há uma sociedade polarizada e ficou fácil mobilizar uma pequena horda digital para causar dano a alguém e pressionar instituições, seja uma rádio, seja uma empresa. Por vezes, a coisa não dá certo. Nesta semana li a cartinha de um grupo de alunos do diretório estudantil da Faculdade de Direito da USP tentando banir Janaina Paschoal no retorno à sua atividade como professora. Os argumentos são conhecidos: ela se aliou ao lado “errado” da política, não assinou a carta que deveria ter assinado, curiosamente em “defesa da democracia”. Talvez por isso o caso tenha ganhado notoriedade. De um lado, a defesa da democracia; de outro, a negação do pluralismo. Apoiadores do lado político que fez 49% dos votos nas eleições devem ser banidos de uma universidade pública. Fosse isso levado à sério, o Brasil voltaria ao século XVIII, quando luteranos não podiam dar aulas em universidades francesas, e católicos em universidades na Inglaterra. Sempre me impressiona a repetição de erros velhos. A boa notícia é o sentido didático disso tudo. Ele veio pela mão do professor Floriano Marques, com uma resposta simples aos donos da verdade: “Discordo da quase totalidade de suas opiniões”, referindo-se à professora Janaina, “o que não me impede de respeitar seus pontos de vista”.
As palavras do professor me fizeram lembrar de um grande advogado inglês, Thomas Erskine, que fez a histórica defesa de Thomas Paine, em 1792, acusado de sedição pela Coroa. Paine havia sido um dos heróis da independência americana, era um republicano e crítico feroz do sistema aristocrático inglês. E havia deixado isso claro com a publicação de Os Direitos do Homem. Criticado por assumir a defesa de Paine, a primeira coisa que Erskine faz é uma vigorosa defesa da advocacia. “O mais precioso bem de um inglês é ter a prerrogativa de um julgamento imparcial”, diz. Ele sutilmente desloca a questão: seu ponto não era defender as posições de Paine, mas mostrar que, por mais que ofendessem as visões do governo e dos próprios jurados, não eram crimes reconhecidos pela lei inglesa. Era preciso distinguir forma e conteúdo. As ideias de Paine poderiam ser hostis à Constituição, mas seu direito de as expressar estava protegido por essa mesma Constituição. Erskine perdeu o caso, mas a história lhe deu razão. Seu argumento traduz a mesma tradição iluminista simbolizada naquele rosto marcado de Rushdie. Tradição que reflete o melhor de nossa herança cultural e que pode nos fazer recuar quando alguém propuser expulsar uma professora com ideias divergentes.
Ainda guardo na memória as palavras de Rushdie, naquela noite em São Paulo, dizendo que era um erro reduzir as pessoas a um credo político, identidade ou religião. Que somos mais complicados que isso, e que no fim do dia temos mais em comum com os outros do que imaginamos, e que a literatura é um bom caminho para compreendermos essas coisas. “Vivi para ver a ascensão e queda de um império”, diz Pampa Kampana, personagem fantástico de seu último livro, “e tudo que resta agora é esta cidade de palavras”. É esse o sentido. Um apelo à humildade intelectual. O reconhecimento de que nossos juízos por vezes falham, miseravelmente, o que frequentemente parecemos esquecer.
Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper
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Publicado em VEJA de 15 de fevereiro de 2023, edição nº 2828
