Há assuntos que por definição deveriam ser mantidos afastados das altas temperaturas da agenda política, sob o risco de graves consequências. Foi o caso, por exemplo, da saúde pública, como se observou no governo passado, no triste episódio da Covid-19 e da vacinação contra o coronavírus, cuja estratégia tresloucada contribuiu para potencializar o número de mortes no Brasil. Guardadas todas as proporções, o mesmo acontece agora no novo governo com a economia, quando o debate deixa a esfera do bom senso e a discussão passa a ser pautada por terraplanismos econômicos para delírio apenas da militância partidária. Nas últimas semanas, numa atitude absolutamente destemperada e acima do tom, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem atacado duramente a independência do Banco Central, bem como seu presidente, Roberto Campos Neto, cujo mandato se estende até 2024. Trata-se de um equívoco gigantesco, que já produz efeitos negativos nos juros futuros, na bolsa e na confiança internacional no país — e, a seguir assim, pode se tornar um desastre ainda maior.

Ao lado das reformas da Previdência e trabalhista, a autonomia do Banco Central foi uma das raras vitórias no campo da economia durante os últimos anos. Por mais de duas décadas, tentava-se instituir o modelo, que blinda as principais decisões ligadas à política monetária das manipulações e influências dos ocupantes do Executivo. Aprovada finalmente no Congresso em 2021, a mudança foi sancionada (a contragosto) por Jair Bolsonaro e, desde o início de 2022, o BC tem em Campos Neto o primeiro — e competente — ocupante do novo regime. Eficaz, o sistema vigora tanto em países desenvolvidos quanto em emergentes, sempre com bons resultados. Nele, a autoridade monetária deixa a esfera das pressões populistas e eleitoreiras para ser pautada por critérios estritamente técnicos — basicamente, controlar a oferta e a demanda de moeda, com o objetivo de combater a inflação.

Lamentavelmente, os ataques contra Campos Neto e a independência do BC vêm num péssimo momento. Com sua eleição, Lula tem a chance de atrair investimentos estrangeiros que veem uma melhora do país em assuntos como o meio ambiente e a estabilidade democrática. Ao dar declarações negativas, porém, ele demole essas perspectivas e — ao contrário do que supostamente gostaria — força o BC a manter as taxas atuais. A rigor, é um desperdício de oportunidade inacreditável. Detalhe: juros mais altos são um instrumento doloroso (mas temporário) para evitar que o trem da economia descarrilhe, como aconteceu no governo de Dilma Rousseff. Na ocasião, sob pressão da presidente e da equipe econômica, o BC mantinha juros baixos para estimular artificialmente o consumo, até o momento em que foi obrigado a elevá-los abruptamente, provocando a maior recessão da nossa história. O próprio Lula, por sinal, deveria conhecer bem essa dinâmica. Em seu primeiro mandato e ainda sem a independência, o presidente do BC nomeado por ele, Henrique Meirelles, manteve as taxas elevadas mesmo sob artilharia constante de membros do governo, como o vice-presidente José Alencar. Deu certo.

Defender o fim da autonomia do Banco Central e atacar seu presidente, como Lula tem feito, acaba sendo um gesto de puro negacionismo econômico, estado mental em que se refutam fatos comprovados em nome de aventuras perigosas. Embalado por uma lógica meramente política, o presidente prefere escolher um bode expiatório e inimigo (Campos Neto), alguém que será responsabilizado por eventuais fracassos no campo econômico, a perder popularidade. É também um tipo de retórica adotado para manter a plateia acesa — estratagema, aliás, muito utilizado por seu rival Bolsonaro. A questão é que discursos messiânicos, recheados de desinformação e voltados para a manipulação da opinião pública não têm poder algum para resolver os problemas reais do país e tirá-lo da letargia econômica. Para isso, as escolhas do presidente deveriam ser feitas acima das conveniências e dos interesses políticos. Tomara que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que parece ser uma voz de bom senso em relação a esse assunto, convença seu chefe a não insistir nesse caminho.

Publicado em VEJA de 15 de fevereiro de 2023, edição nº 2828

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