Filho do ex-ministro José Dirceu, o novo líder do PT na Câmara, o deputado federal, Zeca Dirceu (PT-PR), usou recursos públicos para contratar uma empresa que pertence a uma família já investigada por participar de um esquema de corrupção no programa Minha Casa Minha Vida no Distrito Federal durante a gestão de Agnelo Queiroz (PT).

Trata-se da Essência Engenharia e Serviços, contratada pelo parlamentar em duas frentes: na campanha eleitoral de 2022 e pelo seu gabinete na Câmara. No total, o deputado gastou R$ 36,9 mil. Nas notas emitidas pela empresa e disponíveis no site da Câmara, a Essência declara ter prestado serviços de comunicação e de análise de redes sociais para o gabinete de Zeca Dirceu. À Justiça Eleitoral, o deputado informou que contratou a empresa para fazer impulsionamento de conteúdo.

Segundo informações da Receita Federal, a lista de atividades desempenhadas pela Essência Engenharia é ampla e variada. Vai desde construir prédios, a prestar consultoria em tecnologia de informação e treinamento profissional. Durante as eleições de 2022, a empresa também foi contratada por outras campanhas: todas do PT. Só no período eleitoral, a companhia faturou R$ 388,2 mil.

Boa parte desse valor a Essência recebeu da campanha de Rosilene Corrêa Lima ao Senado. Foram R$ 216 mil. Quem também contratou os serviços dessa empresa foram as campanhas de Erika Kakay, Roberto Policarpo e Vanessa Negrini a deputado federal.

A Essência Engenharia pertence a Rafael Carlos de Oliveira, ex-presidente da Companhia de Desenvolvimento Habitacional (Codhab) do Distrito Federal. Em 2016, quando Oliveira chefiava o órgão, sua família foi investigada pela polícia sob suspeita de participar de uma rede fraudulenta movida à propina que direcionava terrenos do programa Minha Casa Minha Vida na região de Riacho Fundo. Nessa época, o então secretário de Habitação do DF, Geraldo Magela (PT), também foi investigado. Hoje, Magela é vice-presidente de Governo da Caixa Econômica Federal, banco que historicamente administra o Minha Casa Minha Vida.

O pai de Rafael, Carlos Roberto, e a irmã dele, Daniela Kely, seriam os supostos chefes do esquema milionário de venda irregular de terras na região.

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Além de empresário, Rafael ainda desempenha outras funções. Em seu perfil no LinkedIn, diz ter atuado no governo de transição de Lula por dois meses no ano passado. Ocupou o cargo de coordenador-executivo e relator do grupo técnico de Cidades. Antes de virar dono da Essência Engenharia, Rafael trabalhou como secretário-executivo adjunto do Ministério de Desenvolvimento Agrário na gestão de Patrus Ananias e também foi assessor do Ministério da Justiça e do Ministério da Educação durante o primeiro e segundo mandatos de Lula na Presidência.

Em nota, a assessoria de imprensa do deputado repudiou o que chama de tentativa de distorcer a realidade. Para o parlamentar, o motivo seria “esconder” que a empresa é habilitada para prestar serviços de tecnologia e treinamento.

“As contratações realizadas durante o mandato e no período da campanha eleitoral cumpriram todos os princípios da legalidade e foram atestadas e aprovadas, tanto pela Câmara dos Deputados como pelo TSE”, diz a nota.

Zeca Dirceu também nega qualquer ligação com o dono da Essência e considerou “absurdo impor que o deputado conheça a família do empresário ou mesmo seu passado junto a outras esferas públicas”. O parlamentar comunicou ainda ter contratado a empresa para a prestação de serviços de tecnologia e treinamento.

VEJA também procurou o dono da Essência Engenharia e Serviços, Rafael Carlos de Oliveira. Questionado sobre sua empresa atender apenas políticos do PT, ele afirmou que a prestação de serviços a parlamentares corresponde apenas a 5% do faturamento da companhia.

Oliveira negou ter qualquer ligação dele e da família com Zeca Dirceu e admitiu ser filiado ao PT-DF.

“Somos uma empresa especializada em modelagem, arquitetura, desenvolvimento e implantação de projetos “on demand”, nas áreas de Tecnologia da Informação, Comunicação e Tecnologia Social, ou seja, engenharia de software, engenharia de dados (BigData) e engenharia social. Deste modo, quando necessário,também realizamos a construção ou readequação de infraestruturas físicas, visando a instalação de equipamentos”, afirmou em nota.

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