A advogada Patricia Punder, nomeada em 26 de janeiro como perita forense no caso da Americanas, renunciou à atribuição pela Justiça na última quarta-feira, 1°. Em entrevista a VEJA, ela apontou a falta de acordo financeiro e, sobretudo, a impossibilidade de trabalhar com uma das quatro maiores empresas contábeis especializadas em auditoria no mundo (Deloitte, EY, KPMG e PwC) como fatores determinantes para a decisão de abandonar o caso. Fora isso, ela também disse que temia por sua integridade física com o desenrolar das investigações contra os acionistas de referência da Americanas: os poderosos Beto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles.
Patricia chegou a manifestar à Justiça que aceitava a condição e indicou a EY para acompanhar a diligência e conduzir a produção de provas periciais, incluindo a realização de perícia contábil. A EY, no entanto, declinou à investida, uma vez que foi contratada como assessora do comitê independente criado pelo conselho de administração do conglomerado varejista. A Deloitte e a KPMG também recusaram a nomeação. A outra representante das chamadas “Big Four”, a PwC, é alvo da investigação junto com a Americanas.
Segundo a advogada, a recusa das grandes empresas acende um sinal de alerta no caso. “Isso me preocupa muito porque eu precisaria ter uma auditoria de primeira linha, pois o caso é muito complexo”, diz ela, afirmando que chegou a contatar auditorias de “segunda linha”, mas que, por questões de confiabilidade, o ideal seria trabalhar com uma das chamadas “Big Four”. A falta de acordo financeiro, por sua vez, se deu porque o Bradesco não aceitou arcar com o pagamento de 0,5% referente ao montante devido pela Americanas para o banco. “Não chegamos a um acordo porque queriam que os honorários fossem calculados por horas efetivamente trabalhadas, mas eu não consigo estipular isso sem saber o volume de arquivos que serão analisados.”
Segundo ela, a complexidade do caso também é preocupante em relação à integridade física dos responsáveis pela perícia. “Eu fiquei preocupada com a integridade da minha família futuramente. Nós estamos lidando com uma situação onde os acionistas de referência são pessoas muito conhecidas, com influência no mercado financeiro em todos os níveis. Eles são empreendedores admiráveis, mas ao mesmo tempo têm uma cultura agressiva, haja vista que a bonificação na Americanas era muito altíssima comparada com o restante do mercado”, afirma a advogada, que entende ser necessária a contratação de um bunker para realizar a análise do caso.
Para Patricia, o caso tem o potencial de deixar um grande rastro de destruição de pequenos e médios fornecedores da Americanas no país. “Hoje, a Americanas não está pagando nem conta de luz, de telefone ou de internet. Ela pode causar uma quebradeira generalizada na economia brasileira, ainda mais que vários bancos estão envolvidos no caso. Há um risco de ‘efeito dominó’ para a economia brasileira”, disse ela, que chegou a comparar a possível fraude tributária da Americanas com o caso Madoff, maior fraude financeira de Wall Street.
Ela prevê dificuldades para a análise do caso. Nesta quinta-feira, 2, a Justiça do Rio de Janeiro recusou um pedido de busca e apreensão de e-mails de atuais e antigos executivos da companhia. “Não é surpresa isso acontecer. Temos que pensar que a sede das Americanas é no Rio de Janeiro, e a ação que foi provida pelo Bradesco aconteceu em São Paulo. Esse é um tipo de, digamos assim, dificuldade jurídica que existe”, explica. “O nosso código de processo civil tem uma série de recursos e as Americanas vão utilizar de todos os recursos. É um direito deles, mas está ficando cada vez mais difícil de conseguir obter essas provas. O que eu posso te dizer é que esse caso vai muito longe, o que é triste.”
