Cassada após denunciar um gesto nazista durante um ato bolsonarista, a vereadora Maria Tereza Capra (PT), de São Miguel do Oeste, em Santa Catarina, afirma que é vítima de machismo e violência política. A parlamentar foi alvo de diversas ameaças durante o processo e incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas do Ministério dos Direitos Humanos. Eles não fariam o que fizeram se fosse um homem”, afirmou a vereadora a VEJA.

O mandato de Capra foi cassado na madrugada de sábado, 4, por dez votos a um. Os vereadores consideraram que ela quebrou o decoro parlamentar ao “propagar notícias falsas e atribuir aos cidadãos de Santa Catarina e ao município o crime de fazer saudação nazista e ser berço de célula neonazista”. Isso porque Capra fez um post nas redes sociais em que disse que os manifestantes bolsonaristas repetiram “o pior drama que a população mundial viveu, que foi o nazismo” e pediu que o Ministério Público investigasse o caso.

A defesa de Capra vai acionar a Justiça de Santa Catarina para tentar anular a cassação e não descarta levar a questão até o Supremo Tribunal Federal.

Como a senhora está? Já esperava por essa decisão? Eu estou reclusa, aguardando as questões de segurança do programa de proteção do Ministério dos Direitos Humanos. Eu já esperava a cassação, mas ainda alimentava esperanças de que pudesse reverter, até com base nos argumentos que a gente apresentou durante a defesa. Pedimos a suspeição da comissão processante porque eles estavam no ato, mas não conseguimos. Eu tinha esperança, mas eu também estava consciente de que a questão ali é política. Eles (vereadores da comissão) estavam lá (no ato bolsonarista), eles ajudaram a organizar o movimento e o resultado não podia ser outro. 

A senhora se arrepende de ter se posicionado em algum momento? Eu estava cumprindo o meu papel. As pessoas distorceram o que eu falei, eu não acusei nenhuma pessoa especificamente e não disse que São Miguel é uma cidade nazista. A mesma reação que todo mundo teve, eu também tive. 

Considera que houve machismo no processo? Eu não tenho dúvidas. Já fiz vários exercícios imaginando se fosse um homem no meu lugar, se seria esse o comportamento. Eles não fariam o que fizeram se fosse um homem. Eles não permitiriam, teriam conversado. Foi, de fato, uma resposta a todos os avanços que nós, mulheres, tivemos na política em São Miguel do Oeste a partir dos meus mandatos. As pautas que eu trabalhava na Câmara não agradavam a elite dominante da cidade, sempre fui intransigente no combate ao machismo, ao racismo, à LGBTfobia. Quando eu reagi àquela manifestação no meu Instagram, as pessoas me ofendiam, me ameaçavam. Uma perseguição mesmo. 

Já fiz vários exercícios imaginando se fosse um homem no meu lugar, se seria esse o comportamento. Eles não fariam o que fizeram se fosse um homem. Eles não permitiriam, teriam conversado”

Como a senhora pretende reagir? Quais os próximos passos? Eu estou reorganizando a minha vida, aguardando a segurança para poder tentar voltar à rotina. Seguiremos no trabalho de recuperar o mandato. Estou reorganizando a luta, vou seguir em frente, tanto para reaver o mandato, quanto para denunciar a violência política. Independente se eu retornar ou não para a Câmara, a pauta da perseguição às pessoas que se contrapõem a essas práticas nazistas e fascistas continua, inclusive na questão da violência política de gênero. O grupo de trabalho sobre violência política da Procuradoria-Geral da República está acompanhando meu caso. O que aconteceu comigo vai além de uma ameaça, é violência política de gênero. Ainda não tive tempo de chorar. Eu não quero parecer fraca, porque eu não sou, mas é muito triste o que estão fazendo comigo e com a minha família. Muitas mulheres passam por isso na política, o caminho para chegar até aqui significa que já passei por muitas coisas. A cassação do mandato é o ápice da violência e demonstra a força do machismo na política. Mas nós seguimos.

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