Ciente de que o PT não tinha chances na disputa e da necessidade de ampliar a sua base parlamentar, o governo Lula apoiou as candidaturas à reeleição de Arthur Lira (PP-AL) e de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para, respectivamente, as presidências da Câmara e do Senado. A estratégia deu certo, e o petista não terá adversários declarados à frente das duas Casas do Legislativo nos próximos dois anos.
Na eleição mais equilibrada, Pacheco derrotou o senador Rogério Marinho (PL-RN), nome do bolsonarismo, por 49 votos a 32 votos. Não foi uma vitória apertada nem um passeio, o que dá tranquilidade a Lula, mas também serve de alerta para ele. Um grupo de 32 senadores, como os que escolheram o oposicionista Marinho, é mais do que suficiente, por exemplo, para pedir a criação de uma CPI, que exige a adesão de 27 parlamentares.
Os governistas tentam minimizar o número de votos em Marinho, lembrando que nem todos que escolheram ele farão oposição ao governo. É verdade, da mesma forma que nem todos que aderiram a Pacheco estarão alinhados a Lula. Para aprovar uma emenda constitucional no Senado, são necessários 49 votos, justamente o total obtido pelo senador reeleito. Nem os petistas mais otimistas garantem que o governo tem esse contingente na Casa.
Na Câmara, o favoritismo de Lira se confirmou. Aliado de Bolsonaro durante o mandato do capitão, o deputado alagoano bateu o recorde de votos: 464 de um total de 513. Assim, consolidou-se como o senhor do plenário da Casa, com mais ascendência sobre os colegas do que o próprio Lula. Fortalecido, ele será porta-voz das cobranças endereçadas ao governo, que fará o possível para não contrariá-lo, sob pena de inviabilizar a tramitação de projetos prioritários.
O recordista Lira já avisou o entorno do presidente de que vários partidos da Câmara estão insatisfeitos pelo fato de não terem sido atendidos no rateio de cargos e que a distribuição de postos de segundo e terceiro escalões é a chave para tentar solucionar esse problema. As queixas são mais frequentes justamente nos partidos de centro, dos quais Lula mais dependerá. Hoje, estima-se que a base governista tenha 260 votos na Câmara, bem menos do que os 308 necessários para aprovar uma emenda constitucional.
O resultado nas eleições do Congresso não mudou um ponto crucial: Lula terá de atrair novos apoios — e, ao que tudo indica, usará o receituário de sempre: cargos, verbas federais e outras benesses.
