A elevação nos juros, a principal arma dos bancos centrais na luta contra a inflação pode ter efeito rebote, isto é, causar justamente o contrário do esperado. O alerta que pode até soar estranho no primeiro momento é resultado de um estudo realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
O mundo tem experimentado uma restrição financeira significativa e sincronizada como resposta à inflação disseminada. Enquanto alguns bancos centrais se encaminham para encerrar o fim do ciclo de aperto monetário, outros ainda estão aumentando as taxas de juros. A elevação global e simultânea de juros pode ter impactos distintos de um único país que ajusta sua política financeira.
Segundo a OCDE, o aperto monetário sincronizado que vem sendo realizado em diversos países pode acabar exercendo uma força oposta e produzir ainda mais inflação via câmbio. De acordo com o estudo que foi replicado pelo Bradesco, quando vários países elevam suas taxas ao mesmo tempo, o efeito da retração na atividade econômica pode não ser combinada com a valorização da moeda, à medida que os juros sobem de forma desigual em cada região. Nesse caso, o efeito geral de desaceleração do crescimento, que tende a baixar os preços de commodities, pode ser mitigado para um país específico se sua moeda se desvalorizar. A OCDE calcula que o impacto de um aumento de juros sobre a inflação nos Estados Unidos seria de -1,6% no segundo ano, mas esse impacto reduz para 0,7% se houver sincronia de aperto em vários países.
O efeito é semelhante nos países emergentes. Para exemplificar, a elevação de 1% nos juros dos Estados Unidos pode causar uma variação entre 0,3% a 1,1% nas taxas de juros longos de países emergentes e uma desvalorização de 4,4% nas moedas desses países. No caso da moeda brasileira, a desvalorização seria de 6,2%, o que teria um impacto de aproximadamente 0,7% no IPCA em um ano. O relatório do Bradesco explica que quando os bancos centrais atuam de maneira sincronizada, como observado em países desenvolvidos pela OCDE, os países emergentes também podem experimentar uma desaceleração mais acentuada no crescimento, juntamente com uma depreciação cambial, tornando mais difícil uma rápida desaceleração da inflação.
Outra preocupação apontada pela OCDE é que muitos países desenvolvidos não enfrentam uma alta prolongada de juros há quase 20 anos, e muitas mudanças significativas ocorreram em sua economia e estrutura financeira durante esse período. “O mundo atualmente está passando por um grande aperto monetário, algo que não ocorre em países avançados há muito tempo, e não há como prever como essas economias irão reagir a um aumento prolongado das taxas. Nações não acostumadas a juros elevados podem sofrer consequências imprevisíveis e intensas, especialmente no mercado financeiro e com um maior endividamento das famílias e empresas”, diz Myriã Bast, economista do Bradesco. Os estudos indicam para um processo desinflacionário mais lento que o esperado advindo desses choques causados pela própria política monetária, resultando em juros elevados por um período mais longo.
