Se existe um trauma — e dos grandes — na história econômica brasileira é a inflação. Por quase duas décadas, entre o fim dos anos 1970 e o início dos anos 1990, o país viveu intensamente o flagelo, um descontrole absoluto que minava o crescimento e destroçava as economias da população. Em meio a sucessivos planos de combate, o incontrolável aumento nos preços de bens, produtos e serviços cedia temporariamente para voltar cada vez mais avassalador. Em 1993, a hiperinflação superou todos os recordes e cravou o índice de 2 477% acumulado em doze meses, um absurdo sob qualquer aspecto. No ano seguinte, o Plano Real acabou por debelar o problema, com um potente conjunto de medidas ancoradas em uma nova moeda pareada com o dólar. O monstro da inflação passou a ser uma memória distante, isso até o ano retrasado, quando o velho dragão, longe de estar morto, voltou a dar sinais de fumaça. Os anos de 2021 e 2022 registraram inflação de 10,06% e 5,79%, respectivamente. Para 2023, a estimativa é que se repita o índice do ano passado, número bem acima da meta de 3,75%, e uma demonstração de que o monstro ainda não foi dizimado.

Em uma análise simples, a inflação surge como consequência de dois fenômenos. O primeiro deles é quando um governo passa a emitir mais moeda como forma de financiar seus débitos e com isso provoca um aumento geral nos preços. O segundo é o chamado choque de oferta, em que a demanda por produtos, bens e serviços cresce e leva a uma abrupta elevação nos preços. É isso que tem ocorrido atualmente, em todo o planeta, como desdobramento de dois acontecimentos sobrepostos: a retomada pós-pandemia e a guerra da Ucrânia. Em escala global, a inflação tornou-se fonte de preocupações. Há décadas estacionada na faixa entre 1% e 2% ao ano, irrompeu de forma generalizada, chegando perto dos dois dígitos na Europa. A expectativa é que o índice global fique na casa dos 5% nos próximos anos, uma realidade desafiadora mesmo para economias estáveis e pujantes.

No caso brasileiro, a situação é mais preocupante. Ao contrário do que ocorre em nações ricas, o desemprego ainda está elevado e as oscilações do câmbio e dos preços das commodities costumam lançar ondas de choques por toda a economia. Pouco ajuda o discurso recalcitrante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com críticas às taxas de juros e ataques à autonomia do Banco Central. Nessa linha de raciocínio, a perspectiva de um risco fiscal e gastos excessivos do governo só trazem mais incerteza, afastando investimentos. Para completar o cenário de atenção absoluta, alguns economistas ligados à esquerda defendem a ideia de que a inflação não é tão nociva se vier acompanhada de crescimento econômico. Em um país como o Brasil, que já viveu o pesadelo do descontrole, esse pensamento pode ser extremamente perigoso. Não há fórmulas mágicas nem reinvenção da roda nesse combate. A receita é enfrentar a fera quanto antes, enquanto ela não solta potentes labaredas pelas ventas.

Publicado em VEJA de 8 de fevereiro de 2023, edição nº 2827

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