Apesar das respostas que as autoridades do Judiciário, do Legislativo e do governo de Luiz Inácio Lula da Silva deram aos golpistas que invadiram e depredaram as sedes dos três poderes em Brasília no dia 8 de janeiro — que vão da prisão dos manifestantes à intervenção federal na segurança da capital, passando pelo afastamento de comandantes militares e prisão do ex-secretário de Segurança do Distrito Federal Anderson Torres –, o discurso antidemocrático segue firme e forte no submundo das redes sociais.

Um levantamento das pesquisadoras Ana Julia Bernardi (Nupesal-UFRGS) e Letícia Capone (Grupo de Pesquisa em Comunicação, Internet e Política da PUC-Rio) mostrou que, entre os dias 26 e 30 de janeiro, foram registradas 514.716 publicações com conteúdos sobre ataques a instituições e ministros, defesa ds invasões golpistas e manifestações antidemocráticas no Facebook, Twitter e Youtube.

Desse total, 61% foi considerado conteúdo negativo, ou seja, de conteúdo que rechaça o sistema democrático. É a primeira vez desde a posse de Lula que a maioria das ocorrências nessas redes sociais é de ataques à democracia.

A análise também aponta que os ataques passaram a ocorrer de forma mais sistemática do que em semanas anteriores. Só no Instagram, por exemplo, o chamado campo progressista publicou 1,1 mil posts a mais que a extrema direita, mas as interações desta segunda vertente política superaram em mais de três milhões as angariadas pela esquerda.

A principal pauta é a mobilização contra o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que é o candidato à Presidência do Senado apoiado por Lula. Também entraram com destaque narrativas como uma suposta prevaricação de Lula e do ministro da Justiça, Flávio Dino, por conta dos ataques de 8 de janeiro e pedidos de impeachment contra o ministro do STF Alexandre de Moraes.

“Em termos gerais, podemos dizer que a polaridade negativa voltou ao patamar do período eleitoral”, indicou Ana Julia Bernardi. “Em períodos chaves, como nessa semana da eleição do Senado, a extrema direita consegue pegar mais tração nas redes. Provavelmente usando automatização, mas também pela própria organização na guerrilha digital”, afirma ela. “O levantamento mostra que esse campo conservador se reorganiza de forma mais hábil e pauta muito o debate, enquanto o polo progressista, embora siga ativo, perde força”, conclui ela.

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