Pequenos em extensão, isolados dos grandes centros e pobres em recursos naturais, os estados insulares são historicamente alijados das discussões internacionais.

É o que acontecia, por exemplo, em cúpulas para se discutir a crise climática. Nesses encontros, quem dá as cartas são as economias avançadas – notadamente Europa, China e Estados Unidos.

Cada um deles defende sua própria agenda econômica, dando pouco espaço para contestações.

Há, porém, um detalhe. Nos últimos anos, esses países-ilha espalhados pelos mares do globo uniram suas forças, e agora começam a ser ouvidos.

Trata-se do grupo de Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (PEID).

Formada por 38 países reconhecidos pelas Nações Unidas e outros 20 não-membros da entidade, inclui a participação de nações como as Ilhas Comores, no Oceano Índico, Vanuatu, no Pacífico, e Santa Lúcia, no Caribe.

A união foi forjada na crise. Com parcos recursos, as ilhotas lutam para encontrar caminhos sustentáveis para o desenvolvimento ao mesmo tempo em que já experimentam as piores consequências do efeito estufa.

A ONU afirma que há uma sucessão de crises em curso nas ilhas. O aquecimento da atmosfera e dos oceanos vem degradando os recifes de corais e, como consequência, há forte declínio nos cardumes de peixes.

A elevação do nível do mar, por sua vez, vem causando a salinização de rios e lagos, o que torna a água doce escassa nas ilhas.

Por fim, o aumento do nível do mar causado pelo degelo das calotas polares está erodindo praias e regiões costeiras, que também são afetadas por tempestades cada vez mais intensas.

Crianças brincam em praia do arquipélago de Comores, na costa da África: o país, somado a Santa Lúcia e Vanuatu, iniciou o reflorestamento de 100.000 hectares de vegetaçãoUNEP/Divulgação

O grupo teve participação decisiva no tratado de proteção aos mares firmado no último dia 4, em Nova York.

Primeiro acordo do tipo, ele vai contar com mais de 100 países e deverá proteger a biodiversidade em alto-mar.

A empreitada foi considerada como histórica por especialistas, e deverá resultar em controle rígido na proteção da vida marinha. 

O acordo determina que pelo menos 30% dos oceanos serão áreas protegidas até 2030 (hoje, são apenas 1,2%).

Nessas reservas, a pesca, a passagem de navios e a mineração em águas profundas vão ser acompanhadas por órgãos fiscalizadores.

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Também deverá resultar na criação de um novo órgão internacional para gerenciar a conservação da vida nos oceanos. 

O ativismo verde das ilhotas também trouxe resultados positivos em convenções anteriores.

Durante a COP 26, em Copenhagen, em 2021, os países insulares exerceram forte pressão para que se limitasse o aquecimento dos termômetros em 1,5°C, a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris.

“Para boa parte da humanidade, essas ilhas são meros pontos no mapa”, afirma Sai Navoti, chefe do PEID no Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU.

“Mas juntos eles mostram que não são irrelevantes”, completa.

Moroni, capital de Comores: país teme ser engolido pela elevação do nível do marUNEP/Divulgação

Uma das estratégias dos países insulares é fugir de projetos ambiciosos ou marqueteiros.

No lugar da propaganda verde, eles preferem fortalecer e expandir programas de restauração ecológica já existentes. E fazem o dever de casa.

Em Vanuatu, as comunidades costeiras estão encontrando maneiras de reduzir a degradação sobre seus recifes de corais.

Há ações para salvar espécies como o molusco gigante, fundamental para a cadeia alimentar local. Os habitantes também iniciaram o replantio de uma valiosa palmeiras ameaça de extinção, e que protege o litoral da erosão das ondas.

Já em Santa Lúcia, a restauração de manguezais vem protegendo regiões costeiras usadas para o cultivo de musgo marinho.

As comunidades também vêm sendo capacitadas para produzir carvão de forma sustentável e substituir atividades predatórias para rendas alternativas, como o ecoturismo e a apicultura.

Hoje, as áreas de proteção marinha ao redor de Vanuatu já possuem uma extensão equivalente ao território da Alemanha.

Nas Comores, onde a renda baixíssima e o crescimento populacional acelerado pressiona os recursos naturais de forma inédita, o investimento se concentra em capacitar os cidadãos para o ecoturismo.

Os esforços de conservação são liderados pelas comunidades locais. Um deles, por exemplo, substituiu a exploração de areia, atividade de alto impacto ambiental, por um programa de proteção a tartarugas.

Somados, os três países insulares já restauraram uma área equivalente a 110.000 campos de futebol. Um exemplo para o restante do globo.

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