Quando ainda era candidato, Lula bateu sem dó em Jair Bolsonaro e sua “falta de coragem” de interferir na Petrobras para mudar a política de preços dos combustíveis praticada pela estatal. Era coisa de candidato, claro. Afinal, Lula vai completar dois meses no cargo e até agora não chegou metendo o pé na porta da estatal para provocar o estrago na credibilidade da companhia que defendia enquanto oposição.
Agora presidente, Lula também padece de falta de coragem. Não necessariamente para aparelhar politicamente a Petrobras (um ato desastroso para a economia), mas para defender seu ministro da Fazenda dos ataques do PT. Haddad ainda não conseguiu esquentar a cadeira no ministério e já luta sozinho contra a chefe do partido, Gleisi Hoffmann, e contra outros “companheiros” com influência na máquina como Aloizio Mercadante.
O poder de Gleisi para atormentar Haddad vem de Lula. A fragilidade do ministro da Fazenda, por sua vez, também é obra do presidente — por inércia. Lula poderia chamar a companheirada e trabalhar pela unidade de discurso no PT em defesa das propostas do chefe da Fazenda.
Não faz muito tempo, Lula forçou o PT a defender a santidade de suas relações com empreiteiros que saquearam a Petrobras enquanto reformavam o sítio usado pelo chefão petista, bancavam suas viagens de jatinho e mordomias variadas em ditas palestras. O petismo não ligou em fazer tal papel. Por que ligaria agora em defender Haddad, dando tempo e tranquilidade para o ministro trabalhar e colocar em prática o seu plano? Bastaria uma ordem de Lula.
Haddad, no entanto, luta sozinho nessa discussão dos combustíveis, tal qual lutou sozinho na discussão do Banco Central. Lula já disse que chegou ao governo com tesão de 20 anos. Logo, se não usa tanta energia para blindar o ministro da Fazenda da fritura petista, é porque não considera de todo prejudicial para ele o enfraquecimento e a solidão política de Haddad, seu sucessor mais evidente no partido.
Lula poderia, se quisesse, dar uma ordem simples a Gleisi, Mercadante e seus satélites nas redes e no partido: quem fala de economia no governo é Haddad. O presidente, no entanto, permite que a chefe petista contrarie publicamente o trabalho do ministro da Fazenda, como fez no fim de semana:
“Antes de falar em retomar tributos sobre combustíveis, é preciso definir uma nova política de preços para a Petrobrás. Isso será possível a partir de abril, quando o Conselho de Administração for renovado, com pessoas comprometidas com a reconstrução da empresa e de seu papel para o país”, disse Gleisi.
A deputada é hoje presidente nacional do PT. Não tem papel na equipe econômica nem no governo para sair antecipando entendimentos que colocam Haddad em posição de fragilidade na pasta.
Para o mercado e para os investidores internacionais há uma dúvida: no governo, quem fala pela economia é o ministro da Fazenda ou a chefe do PT? Quem Lula escuta mais? Ao não defender Haddad do tiroteio petista e permitir que essa dúvida simplesmente exista, Lula já boicota o trabalho de seu auxiliar mais importante.
