Nos últimos dias, o ChatGPT tem chamado a atenção das pessoas e ganhado o noticiário levantando o debate sobre as potencialidades do uso da inteligência artificial em seu estágio atual e até mesmo as ameaças que as tecnologias de ponta podem representar às profissões. A repercussão em torno da ferramenta que produz textos relativamente bem elaborados e que aprende na medida em que vai recebendo mais conteúdos mostra que o nível de desenvolvimento deste tipo de tecnologia conseguiu colocar os debates sobre inteligência artificial em um patamar nunca antes visto.
Se por um lado o cenário parece lembrar o de filmes de ficção, por outro é essencial levarmos em conta como o brasileiro lida com as tecnologias e se há um grau de confiança nelas que justifique o receio de que profissões tidas como essencialmente humanas sejam substituídas por um robô capaz de desenvolver raciocínios elaborados e aprender com os erros. Foi pensando nesse cenário que o Instituto Locomotiva fez um levantamento inédito sobre como o brasileiro lida com a inteligência artificial. A conclusão é de que, até o momento, ainda preferimos pessoas do que máquinas, mesmo que a Inteligência Artificial seja mais eficiente para determinada tarefa.
Ao todo, foram ouvidas 1,7 mil pessoas em todo o país, que foram confrontadas com quatro cenários hipotéticos para avaliar a confiança na execução de tarefas realizadas por humanos e por máquinas. São eles:
– o investimento de uma cidade em uma nova tropa de policiais para enfrentar o problema de abordagens desproporcionais de inocentes moradores em favelas;
– a introdução de um novo consultor de RH para avaliar a política de aumentos salariais de uma empresa;
– a introdução de um profissional para tornar mais justo o processo de seleção de profissionais para atuar em uma empresa;
– a adoção de um novo método de distribuição de recursos públicos em uma prefeitura.
Em todos os cenários, os entrevistados foram questionados sobre a realização do trabalho por uma máquina/robô e por um humano. Em todos eles, os profissionais humanos recebem mais crédito pelos sucessos obtidos e houve uma maior complacência com eventuais erros cometidos pelos humanos do que com os cometidos pelas máquinas.
Mais que isso, o estudo identificou que as pessoas estão muito menos dispostas a substituir o trabalho humano pelo de máquinas ainda que elas sejam mais eficientes. As pessoas também estão mais dispostas a trocar um trabalho feito por uma máquina que cometa algum erro pelo de um humano do que trocar um humano que erra por uma máquina.
Alguns recortes do estudo ajudam a compreender os valores que levam os brasileiros a ter essa desconfiança. No cenário em que foi abordada a atuação policial, por exemplo, a diferença de gênero e raça não impacta a percepção geral sobre o trabalho das máquinas e dos humanos. Já quando se considera a faixa etária, o público na faixa entre 31 e 50 anos prefere o trabalho humano (55% dos entrevistados nessa faixa etária) do que o de robôs (45%), mesmo que o trabalho das máquinas tenha sido mais eficiente. O público de 18 a 30 anos, por sua vez, confia mais nas máquinas (61%) do que nos humanos (39%) caso as máquinas tenham sido mais eficientes.
Em outro cenário, sobre a adoção de um novo método para distribuir verbas públicas de uma prefeitura, 80% dos entrevistados substituiriam a inteligência artificial por um humano caso ela cometesse algum erro, enquanto que 66% substituiriam o gestor humano por uma máquina caso o erro fosse do humano.
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Ao que tudo indica, a população mais velha tende a ter mais resistência ao trabalho de máquinas dependendo da natureza dele, até mesmo por uma questão de medo de perder o emprego para as novas tecnologias. Este medo, por sua vez, parece não afetar tanto o público mais jovem.
Também vale notar que, quando assunto é distribuir algo tão importante quanto o recurso público de um município, a confiança em um ser humano que erra é maior do que a confiança em uma máquina que comete equívocos. O contato humano, a possibilidade de poder aferir erros e apontar culpados por eles e a desconfiança sobre a efetividade de um sistema, por mais moderno que ele seja, ainda têm seu peso.
Em outras palavras, os avanços tecnológicos como o Chat GPT podem até encantar uma parcela significativa da população e mesmo melhorar a eficiência de alguns trabalhos. No entanto, para os brasileiros, a confiança nas máquinas parece ter alguns limites, sobretudo quando consideramos a natureza daquilo com o que elas estão lidando. Dificilmente uma mudança tão drástica quanto a total automatização de decisões sobre orçamento público, por exemplo, seria factível e mesmo desejável no atual momento.
A inteligência artificial veio para ficar e passará a fazer parte cada vez mais do nosso dia a dia. No entanto, os vieses contra as máquinas ainda são grandes entre os brasileiros. Ao que tudo indica o calor humano ainda é o preferido dos brasileiros.
